Recentemente, em um trabalho de consultoria para uma empresa que dizia ter como diferencial a valorização
da escuta e uma comunicação empática, uma pesquisa interna revelou algo que ainda não estava claro para a própria organização. Os colaboradores diziam não se sentir à vontade para dar qualquer tipo de feedback.

Não por falta de opinião ou de engajamento, mas porque não percebiam a liderança como um caminho de confiança. 

Quando levavam questões para a gestão direta, como sempre foi incentivado, esperavam que
essas falas fossem consideradas e encaminhadas.
Esperavam apoio, escuta e algum movimento de resolução.

No lugar disso, encontravam justificativas e em alguns momentos, incômodo.
Aos poucos, passaram a se calar.

Situações assim não são incomuns. Muitas organizações investem em treinamentos,
falam sobre a importância da escuta e desejam fortalecer a colaboração de seus times.

Mas a própria gestão ainda não está preparada para esse tipo de abertura,
e nessa divergência a cultura real começa a se revelar.
 

A cultura que existe para além do discurso 

Cultura organizacional raramente se define no que é comunicado formalmente,
ela ganha forma no modo como as relações acontecem no cotidiano.

É nas interações mais simples que seus contornos aparecem com mais nitidez.
Ela vai sendo construída na rotina, nos acordos implícitos que orientam comportamentos,
nos limites impostos ou na falta deles.
 

Quando conversas francas começam a ser evitadas ou quando o erro passa a ser recebido com julgamento, vemos um padrão se formando.
Aos poucos, as pessoas ajustam sua forma de participar para reduzir a exposição e proteger sua imagem ou relações.
Como resultado natural, o ambiente se torna cada vez mais silencioso. 

Ambientes assim podem parecer estáveis à primeira vista. A ausência de conflito aparente sugere harmonia, mas muitas vezes o que existe é tensão contida.

O medo de consequências sociais ou profissionais passa a influenciar o modo como as pessoas se comunicam e colaboram. 

Amy Edmondson, em seu livro “A organização sem medo”, descreve esse movimento ao afirmar que
o silêncio organizacional é aprendido.

Pessoas deixam de fazer perguntas ou de trazer problemas não por desinteresse,
mas porque percebem riscos nessas atitudes.

Esse aprendizado acontece na observação durante o cotidiano corporativo, principalmente na forma como lideranças respondem a situações difíceis. 

Não adianta existir um discurso sobre comunicação empática se, na prática, a divergência é interpretada
como ameaça ou a escuta acontece já carregada de julgamento.

As equipes observam essas reações com atenção.
E quando percebem incoerência com o discurso alimentado,
o silêncio passa a funcionar como uma forma de autoproteção.
 

Nesse processo, feedbacks deixam de acontecer e conversas importantes são adiadas.
O silêncio, que muitas vezes é confundido com alinhamento, pode ser apenas um sinal de desconexão gradual.
 

Maturidade relacional e a construção intencional da cultura 

Transformações culturais começam a ganhar consistência quando novas formas de lidar com frustrações
e divergências passam a serpraticadas no cotidiano.

Isso implica revisar padrões que já se tornaram automáticos e assumir uma responsabilidade
mais intencional sobre a forma como as relações são conduzidas.
 

Investir nessa dimensão tende a reduzir ruídos desnecessários, mas principalmente ampliar a qualidade das relações. A confiança passa a ter mais espaço e o trabalho coletivo encontra mais força de colaboração. 

Empresas com um olhar mais maduro começam a enxergar a maturidade relacional não como algo a ser desenvolvido apenas no nível individual, mas como uma competência cultural construída coletivamente.

A capacidade de manter eficiência mesmo diante do desconforto natural das relações passa a ser vista como parte do próprio funcionamento do ambiente. 

Treinamentos e mentorias com processos estruturados podem contribuir para esse movimento,
mas o ponto central não está apenas na técnica.

Trata-se de ampliar a consciência sobre o impacto que cada interação produz no ambiente coletivo e de manter
a comunicação em um lugar mais estratégico no exercício da liderança.
 

No fim, cultura é repetição.
É o que vai sendo construído silenciosamente, com consistência, na forma como as pessoas se tratam todos os dias.
É o que permanece depois que o discurso termina. 

Fernanda Paim
Fundadora da Presença Plena, consultoria especializada em comunicação corporativa, presença e saúde relacional no trabalho. Atua no apoio a lideranças e áreas de RH no fortalecimento da cultura organizacional, da comunicação interna e da segurança psicológica, especialmente em contextos de alta exigência emocional. 

O artigo reúne sua experiência prática, reflexões profissionais e referências com dados que ajudam a contextualizar o tema. 

Se fizer sentido, vamos seguir essa conversa no LinkedIn:
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Referências:
Edmondson, Amy. A Organização Sem Medo: Criando Segurança Psicológica no Local de Trabalho para Aprendizado, Inovação e Crescimento. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.

*Os artigos publicados no Blog Endomarketing.TV buscam fomentar o debate e o conhecimento no setor. As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição institucional da Progic.

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