Se a Inteligência Artificial pode nos ajudar a pensar, em que momento ela começa a pensar em nosso lugar? 

Tenho utilizado cada vez mais a Inteligência Artificial no meu trabalho e, por isso mesmo, tenho me feito uma pergunta que algum tempo atrás provavelmente não faria. 

Imagine que você tenha uma decisão importante pela frente. Há informações demais, interesses diferentes envolvidos, consequências difíceis de antecipar e, como acontece tantas vezes na vida real, nenhuma alternativa parece inteiramente boa. Você abre uma ferramenta de IA, descreve a situação, oferece o máximo de contexto que consegue e pede ajuda. 

Em poucos segundos, recebe uma resposta surpreendentemente boa. A IA organiza os fatos, identifica variáveis que você possivelmente não tivesse percebido, apresenta alternativas, aponta riscos e consequências e, dependendo da forma como você formulou sua pergunta, chega até a sugerir qual caminho parece mais adequado. Você lê, relê e pensa: faz sentido. 

Foi justamente aí que comecei a perceber uma questão que me parece cada vez mais importante: quanto daquela decisão ainda é minha? 

Não estou sugerindo, evidentemente, que deveríamos deixar de recorrer à IA para nos ajudar a pensar. Seria contraditório. Eu próprio venho experimentando essas ferramentas e tenho constatado o quanto elas podem ampliar perspectivas, organizar pensamentos, confrontar certezas e revelar possibilidades que talvez demorássemos muito mais tempo para perceber sozinhos. 

A questão, para mim, começa em outro lugar. Começa quando deixamos de perceber a diferença entre usar a IA para nos ajudar a discernir e usá-la para não precisar discernir. 

Inteligência e discernimento são a mesma coisa? 

Uma Inteligência Artificial pode processar uma quantidade de informações muito maior do que nós, estabelecer relações, identificar padrões, comparar alternativas e construir cenários com uma velocidade que dificilmente conseguiríamos acompanhar. Tudo isso pode nos ajudar a tomar decisões mais bem informadas e seria pouco inteligente desprezar essas possibilidades. Mas será que discernir é apenas analisar melhor as informações disponíveis? 

Tenho chegado à conclusão de que não. 

Discernir envolve informação e análise, mas não termina nelas. Quando uma decisão realmente importa, precisamos também reconhecer os valores que estão em jogo, perceber nossos próprios interesses, medos e vieses, considerar as pessoas que serão afetadas e, muitas vezes, conviver algum tempo com a dúvida sem correr imediatamente em busca de uma resposta. Há decisões em que duas alternativas podem ser perfeitamente defensáveis do ponto de vista racional e, ainda assim, precisamos escolher uma delas. 

É nesse momento que começo a enxergar com mais clareza uma fronteira entre inteligência e discernimento. A IA pode participar da análise, ampliar nossa visão e até nos fazer perguntas que talvez não fizéssemos sozinhos. Mas, em algum momento desse processo, chegamos a um lugar em que nenhuma quantidade adicional de informação poderá escolher por nós. É quando precisamos olhar para tudo aquilo que conseguimos compreender e dizer: diante disso, eu escolho. 

E, ao escolher, assumir também as consequências da escolha. 

O que estamos transferindo quando transferimos uma tarefa? 

 Um dos riscos mais interessantes da Inteligência Artificial não está apenas naquilo que as máquinas serão capazes de fazer, mas naquilo que nós, gradativamente, poderemos deixar de fazer porque elas fazem muito bem. 

Quanto melhor se torna a resposta da máquina, maior pode ser nossa tentação de aceitá-la. E, se isso começar a acontecer com frequência, talvez estejamos transferindo não apenas tarefas, mas também capacidades que desenvolvemos justamente porque precisamos exercitá-las. Concorda comigo? 

Foi dessa inquietação que nasceu uma lente que apresentei em meu primeiro artigo para o Endomarketing.tv: Delegar | Ampliar | Preservar — D|A|P. 

Há coisas que podemos tranquilamente delegar à IA. Há outras em que podemos utilizá-la para ampliar enormemente nossa capacidade. E há dimensões da experiência humana que provavelmente precisemos escolher conscientemente preservar, não porque a tecnologia não seja capaz de participar delas, mas porque o próprio exercício dessas capacidades participa daquilo que estamos nos tornando. 

O discernimento, acredito, está entre elas. 

Antes de pedir uma resposta, experimente mudar a pergunta 

Tenho feito uma pequena experiência que talvez ajude a tornar essa distinção mais concreta. Quando estou diante de uma questão importante, procuro evitar perguntar à IA: “O que devo fazer?”. Tenho preferido perguntas como: “O que eu ainda não estou enxergando?”, “Que pressupostos meus deveriam ser questionados?” ou “Que perguntas eu precisaria responder antes de tomar essa decisão?” 

Pode parecer apenas uma mudança na forma de perguntar, mas percebo uma diferença importante. Não há problema, por si só, em pedir uma recomendação à IA. O que importa é o lugar que atribuímos à resposta: ela pode ampliar nossa compreensão ou encerrar prematuramente nossa reflexão. Ao pedir que a IA me ajude a enxergar melhor, procuro manter comigo o exercício de decidir. 

A diferença está em quem permanece responsável pela escolha. 

Pense numa equipe de Comunicação Interna que precisa comunicar uma mudança que afeta a rotina dos colaboradores. A IA pode comparar versões da mensagem, apontar ambiguidades e sugerir perguntas que diferentes públicos poderiam fazer. Mas uma redação clara, por si só, não garante uma comunicação humana. Precisamos também perguntar: o que já podemos afirmar com segurança? Quem precisa ser ouvido? Que dúvidas exigem uma conversa, além de um comunicado? 

Essas perguntas são especialmente úteis quando a decisão envolve pessoas, valores em tensão ou consequências difíceis de antecipar. Para tarefas rotineiras, pode bastar uma revisão proporcional ao contexto. Em qualquer caso, uma resposta convincente pode conter erros, reproduzir vieses ou omitir aspectos que não foram apresentados. Cabe a nós verificar as informações relevantes e respeitar a confidencialidade do que compartilhamos com a ferramenta. 

Creio que uma das competências mais importantes que precisaremos desenvolver nos próximos anos não seja apenas aprender a utilizar melhor a Inteligência Artificial. Precisaremos aprender também a reconhecer quando ela está ampliando nossa capacidade humana e quando, quase sem percebermos, começamos a entregar a ela aquilo que deveríamos continuar exercitando. 

Não se trata, portanto, de escolher entre inteligência humana e inteligência artificial. Trata-se de aprender a construir uma relação em que a extraordinária capacidade da máquina possa ampliar aquilo que temos de humano sem ocupar o nosso lugar. 

Antes de recorrer à IA diante de uma decisão importante,  vale fazer três perguntas: 

  1. Estou buscando uma resposta ou uma perspectiva que ainda não consigo enxergar?
  2. Que valores estão presentes nesta escolha e não podem ser reduzidos aos dados?
  3. Depois de ouvir a IA, continuo disposto a assumir como minha a decisão e suas consequências?

Porque uma IA pode nos ajudar a organizar uma decisão, confrontar nossas certezas e ampliar perspectivas. Mas, depois de tudo isso, ainda resta uma pergunta que nenhuma máquina deveria responder por nós: 

Diante de tudo o que agora consigo ver, quem escolho ser quando escolho? 

É nesse ponto que, para mim, começa o discernimento. 

*Os artigos publicados no Blog Endomarketing.TV buscam fomentar o debate e o conhecimento no setor. As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição institucional da Progic.

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