Há algum tempo venho me fazendo uma pergunta sobre Inteligência Artificial. Não é sobre o que ela ainda será capaz de fazer. É quase o contrário: o que queremos continuar fazendo nós mesmos?
A pergunta pode parecer estranha num momento em que somos estimulados a aprender novos prompts, agentes, ferramentas e maneiras de automatizar nosso trabalho. Não tenho qualquer resistência à Inteligência Artificial. Ao contrário. Uso-a intensamente, estudo suas possibilidades e cheguei a criar uma IA mentorativa para experimentar justamente como essa tecnologia pode contribuir para o desenvolvimento humano.
Talvez por conviver tanto com ela, comecei a prestar atenção a outra questão. A IA já escreve, resume, pesquisa, organiza informações, compara alternativas, constrói apresentações, analisa dados, sugere argumentos e nos ajuda a preparar decisões. A lista cresce quase todos os dias, e ainda bem. Há ganhos extraordinários de produtividade e possibilidades que há poucos anos seriam difíceis de imaginar.
Mas o fato de algo poder ser delegado à Inteligência Artificial significa necessariamente que deva ser delegado? Não tenho certeza.
Não é apenas uma questão de produtividade
Durante muito tempo, utilizamos a tecnologia principalmente para fazer melhor, mais rápido ou em maior escala aquilo que já fazíamos. A IA generativa introduziu algo diferente nessa relação: começou a participar não apenas daquilo que fazemos, mas também daquilo que acontece antes de fazermos.
Ela pode nos ajudar a interpretar uma situação, construir argumentos, confrontar alternativas, preparar uma conversa difícil e até sugerir uma decisão. Isso representa um enorme ganho de capacidade, mas também nos coloca diante de uma questão que me interessa particularmente: uma coisa é delegar uma tarefa; outra é começar, talvez sem perceber, a delegar junto com ela capacidades que precisamos continuar desenvolvendo.
Tenho organizado essa reflexão em torno de três verbos bastante simples: delegar, ampliar e preservar. Não os vejo como uma metodologia ou uma sequência a ser seguida, mas como três perspectivas que podem nos ajudar a pensar sobre nossa relação com a IA.
O que podemos delegar?
Muita coisa. Não vejo virtude em continuar fazendo manualmente uma tarefa apenas para provar que ainda somos capazes de fazê-la.
Se a IA pode organizar um grande volume de informações, resumir documentos, identificar padrões, preparar uma primeira estrutura ou comparar dados com mais rapidez, por que não utilizá-la? Podemos ganhar tempo, qualidade e produtividade. E tempo importa, principalmente quando podemos utilizá-lo naquilo que realmente exige nossa atenção.
O ponto talvez esteja em perceber o que estamos delegando junto com a tarefa.
Imagine uma liderança diante de uma decisão difícil. Ela pode recorrer à IA para organizar fatos, construir cenários, identificar consequências ainda não percebidas ou questionar algumas de suas premissas. Pode até perguntar: “O que devo fazer?”
Não vejo necessariamente um problema nessa pergunta. A resposta pode trazer uma perspectiva ainda não considerada, confrontar uma convicção, revelar uma contradição ou ampliar a compreensão daquilo que está em jogo.
O problema começa quando deixamos de utilizar a resposta para discernir e passamos a utilizá-la para não precisar discernir. Essa diferença me parece fundamental.
O que podemos ampliar?
Talvez esteja aqui uma das possibilidades mais interessantes da Inteligência Artificial. Em vez de utilizá-la apenas para fazer algo por nós, podemos utilizá-la para nos ajudar a enxergar melhor. Posso apresentar uma ideia e pedir que a IA a confronte, solicitar argumentos contrários aos meus, explorar cenários ou perguntar o que talvez eu não esteja considerando. Posso até pedir uma recomendação. Nada disso me obriga a aceitá-la.
Ampliar não significa impedir a IA de responder. Significa não confundir a resposta da IA com a nossa decisão.
Essa distinção me parece particularmente importante para quem trabalha com liderança, Gestão de Pessoas e Comunicação Interna.
Pense, por exemplo, numa comunicação sensível dentro de uma organização. A IA pode ajudar a antecipar como diferentes públicos poderão interpretar aquela mensagem, identificar ambiguidades, sugerir maneiras mais claras de dizer alguma coisa ou mostrar consequências ainda não consideradas. Pode melhorar muito a comunicação.
No entanto, duas perguntas permanecem conosco: é isso que realmente queremos dizer? E estamos dispostos a responder pelo que estamos dizendo? A tecnologia pode participar da construção da resposta. A responsabilidade por ela continua sendo nossa.
E o que precisamos preservar?
Esta talvez seja a pergunta mais difícil, porque seria tentador construir uma lista das coisas que consideramos “exclusivamente humanas”. Prefiro não fazê-lo. Com a velocidade da evolução tecnológica, provavelmente essa lista envelheceria muito rapidamente.
A questão que me interessa não é proteger tarefas humanas das máquinas. É perguntar quais capacidades humanas queremos continuar exercitando.
Perceber nuances, compreender contextos, reconhecer valores em conflito, pensar criticamente, sustentar uma conversa difícil, ouvir alguém sem imediatamente oferecer uma resposta, escolher e assumir responsabilidade pelas consequências dessa escolha são alguns exemplos.
Uma IA pode nos ajudar a preparar uma conversa difícil, escrever uma mensagem empática ou recomendar uma decisão. Tudo isso pode ser muito útil. Minha preocupação começa quando o uso continuado dessas facilidades nos leva, pouco a pouco, a deixar de exercitar capacidades que ainda consideramos importantes: conduzir a conversa, encontrar nossas próprias palavras, avaliar alternativas e assumir as consequências daquilo que decidimos.
Não proponho respostas universais para isso. O contexto importa. Uma atividade que faz sentido delegar em determinada situação pode exigir nossa participação direta em outra. E talvez seja justamente por isso que precisamos de discernimento.
Três perguntas antes de delegar
Tenho experimentado algumas perguntas simples na minha própria relação com a Inteligência Artificial e acredito que possam ser úteis também no ambiente de trabalho.
- O que ganho ao delegar isto?
Tempo, qualidade, rapidez, acesso a mais informações ou uma perspectiva que talvez não alcançasse sozinho? - Se eu fizer isso repetidamente, o que deixarei de exercitar?
Minha escrita, meu pensamento crítico, minha capacidade de argumentar, minha criatividade, minha escuta ou até minha coragem para enfrentar determinadas conversas? - Quem continuará responsável pelas consequências?
Essa talvez seja a pergunta mais importante. Podemos delegar execução, utilizar a IA para ampliar nossa percepção e receber recomendações. Mas, em muitas das decisões que realmente importam, continuaremos sendo nós a viver — e fazer outras pessoas viverem — com suas consequências.
Talvez a questão não seja humano versus máquina
Tenho certa resistência à maneira como algumas discussões sobre Inteligência Artificial são colocadas. De um lado, um entusiasmo quase irrestrito, como se precisássemos utilizar tudo aquilo que a tecnologia se mostrar capaz de fazer. Do outro, uma defesa do “humano” como se estivéssemos diante de territórios inimigos.
Não me reconheço em nenhum desses extremos. A Inteligência Artificial pode ampliar extraordinariamente nossa capacidade de trabalhar, aprender, criar e decidir. Quero utilizá-la e continuar aprendendo com ela. Mas também quero permanecer atento ao que acontece comigo enquanto a utilizo.
Talvez uma das competências humanas mais importantes diante da Inteligência Artificial não seja apenas saber utilizá-la, mas discernir nossa relação com ela: o que faz sentido delegar, o que podemos ampliar com sua ajuda e o que queremos continuar exercitando e assumindo como nossa responsabilidade.
Há uma ideia que atravessa o trabalho que venho desenvolvendo sobre discernimento: toda escolha transforma também aquele que escolhe.
A convivência com a Inteligência Artificial está me levando a acrescentar outra: aquilo que escolhemos deixar de exercitar também participa daquilo em que nos tornamos.
Talvez valha a pena lembrar disso, de vez em quando, antes de apertarmos Enter.

*Os artigos publicados no Blog Endomarketing.TV buscam fomentar o debate e o conhecimento no setor. As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição institucional da Progic.








