A expansão das empresas nem sempre é acompanhada pelo que elas desejam representar
Empresas que carregam uma trajetória sólida, muitas vezes de origem familiar, geralmente possuem algo raro: consciência de origem. Sabem de onde vieram, valorizam o trabalho duro e preservam um conjunto de valores que ajudou a construir sua reputação. Esse tipo de organização costuma crescer tentando equilibrar duas forças importantes: a tradição que sustenta sua identidade e a inovação necessária para continuar relevante e competitiva no mercado. O crescimento, nesses casos, não é apenas uma estratégia de mercado, mas também um exercício constante de preservação cultural.
No entanto, é justamente nesse momento de expansão que surge um desafio silencioso. À medida em que estruturas se ampliam, equipes crescem e novas lideranças chegam, torna-se cada vez mais difícil manter entre todos os colaboradores uma compreensão clara sobre três perguntas fundamentais: quem somos, o que fazemos e para quê fazemos.
Admiração pela empresa não significa clareza sobre o próprio papel na organização
Em muitas organizações em crescimento, os colaboradores admiram a empresa onde trabalham: há o respeito pela história construída até então e orgulho em fazer parte de um negócio que se destaca. Porém, admiração não é necessariamente compreensão do seu próprio papel e sentido.
Com o tempo, pode surgir uma sensação difícil de explicar: as pessoas continuam executando tarefas, entregando demandas e cumprindo rotinas, mas passam a sentir que caminham dentro da organização sem entender plenamente qual é o sentido maior do próprio trabalho. Quando isso acontece, instala-se um desalinhamento silencioso entre propósito institucional e experiência cotidiana do colaborador.
Parte desse fenômeno está ligada à própria dinâmica contemporânea do trabalho. Pessoas entram e saem com mais frequência, lideranças mudam e estruturas se reorganizam. Nesse movimento constante, a narrativa coletiva que dá sentido ao trabalho muitas vezes se fragmenta. Cada pessoa passa a interpretar a organização a partir de sua própria experiência e, gradualmente, diferentes áreas começam a operar com versões ligeiramente diferentes da mesma empresa: está sendo preparada a receita caótica da distração. Quando falo de distração, me refiro à origem etimológica da palavra, em que forças tracionam para diferentes lugares acreditando ter o mesmo objetivo.
Quando o produto ou serviço expressa experiência, o desalinhamento se torna ainda mais visível
Esse fenômeno tende a ser ainda mais sensível em empresas e setores baseados na experiência humana, como hospitalidade, turismo, saúde, educação e serviços em geral. Nesses contextos, o trabalho não se limita à execução correta de tarefas, mas envolve a construção de experiências, percepções e memórias.
“Em ambientes assim, colaboradores não lidam apenas com clientes, mas com pessoas que permanecem no espaço por algum tempo, observam detalhes, interagem com as equipes e constroem vínculos. Isso exige mais do que eficiência operacional: exige disponibilidade emocional.”
Essa disponibilidade, no entanto, não nasce apenas de treinamentos técnicos ou protocolos de atendimento. Ela depende fortemente de um fator mais profundo: o sentimento de pertencimento. Quando o colaborador entende o propósito do lugar onde trabalha, o cuidado com o outro deixa de ser apenas obrigação e passa a ser expressão natural da cultura.
A ‘Torre de Babel’ das organizações
Outro fator que agrava esse cenário é a dificuldade crescente de comunicação clara dentro das empresas. Vivemos em uma época marcada por excesso de informação, distrações constantes e pouca disponibilidade para leitura profunda e escuta ativa. Isso impacta diretamente a compreensão das mensagens organizacionais.
Expectativas que parecem claras para a liderança podem não estar igualmente claras para quem executa: orientações importantes são interpretadas parcialmente; demandas são compreendidas apenas em parte. Aos poucos, diferentes níveis da organização passam a falar linguagens parecidas, mas não exatamente a mesma língua.
O resultado é uma espécie de ‘Torre de Babel corporativa’: todos trabalham, todos se esforçam, mas nem sempre todos entendem exatamente o que estão construindo juntos.
O elemento frequentemente esquecido: o vínculo humano
Diante desses desafios, muitas empresas recorrem apenas a mais processos, mais metas e mais indicadores. Esses elementos são importantes e fazem parte de qualquer gestão responsável. No entanto, quando usados isoladamente, raramente resolvem o problema de fundo. Inclusive, podem até agravá-lo.
“Organizações são feitas de pessoas, e pessoas não se movem apenas por lógica operacional. Elas carregam histórias pessoais, inseguranças, aspirações e necessidades profundas de reconhecimento. Ignorar essa dimensão emocional do trabalho costuma gerar consequências diretas no clima organizacional, no engajamento e na rotatividade.”
Em muitas equipes existem profissionais que deixaram suas cidades de origem e suas redes de apoio em busca de melhores oportunidades. São pessoas que passam grande parte do dia atendendo outras histórias, outras famílias e outros sonhos. Em contextos assim, o verdadeiro desafio das empresas talvez seja criar condições para que essas trajetórias humanas encontrem algum tipo de conexão dentro do ambiente de trabalho. É necessário estimular a criação de vínculo e isso muitas vezes vêm do exemplo.
Comunicação Interna como construção de pertencimento
É nesse ponto que a comunicação interna deixa de ser apenas um canal de transmissão de informações e passa a desempenhar um papel estratégico na cultura organizacional.
Quando bem conduzida, ela ajuda a traduzir o propósito da empresa para o cotidiano das equipes, conecta decisões estratégicas ao trabalho prático das pessoas e cria espaços de reconhecimento e valorização. Mais do que informar, ela contribui para que os colaboradores compreendam o impacto do que fazem e o lugar que ocupam dentro da organização.
Esse tipo de comunicação não elimina desafios estruturais, mas tende a reduzir ruídos, fortalecer vínculos e aumentar a sensação de pertencimento: fatores que influenciam diretamente o engajamento e a permanência das pessoas.
Perguntas práticas para quem lidera Comunicação Interna
Para profissionais de comunicação interna, cultura ou gestão de pessoas, algumas perguntas podem ajudar a diagnosticar se esse desalinhamento está acontecendo dentro da organização:
1️⃣ Se perguntarmos a diferentes colaboradores “qual é o propósito da empresa”, as respostas seriam semelhantes?
2️⃣ As decisões estratégicas da liderança são traduzidas de forma clara para o dia a dia das equipes?
3️⃣ Os colaboradores conseguem enxergar como seu trabalho impacta a experiência do cliente ou usuário?
4️⃣ Existem rituais de reconhecimento que valorizem conquistas individuais e coletivas?
5️⃣ A comunicação interna explica apenas o “o que fazer” ou também o “por que fazemos”?
Essas perguntas simples podem ajudar muito a entender sobre o alinhamento cultural de uma organização.
Pontos que podem ajudar no sentimento de propósito e pertencimento
Organizações que desejam fortalecer o engajamento de suas equipes podem começar com alguns movimentos relativamente simples:
- Criar rituais de reconhecimento, valorizando boas práticas e conquistas do time. Isso também ajuda para quando houver a necessidade de uma cobrança mais dura, a ver mais comprometimento.
- Investir em narrativas internas consistentes, que expliquem decisões, mudanças e prioridades.
- Escutar mais as equipes, utilizando pesquisas internas, conversas estruturadas para compreender percepções e reuniões de briefing ou feedbacks constantes.
- Ter uma comunicação estável e consistente, deixando todos a par do porquê de algumas decisões ou necessidades.
Nenhuma dessas ações resolve sozinha os desafios da cultura organizacional, mas juntas podem ajudar a reduzir significativamente os ruídos que surgem quando empresas crescem mais rápido do que a compreensão coletiva sobre quem elas são.
Uma reflexão final
Existe uma crença bastante difundida no mundo corporativo de que, quanto mais se oferece às pessoas, mais elas passam a exigir. É possível que isso aconteça em alguns casos. Mas também é verdade que, quando existe reconhecimento genuíno e clareza de propósito, muitos profissionais respondem com algo igualmente valioso: comprometimento, lealdade e senso de pertencimento.
“No fim das contas, todas as organizações convivem com dois tipos de trajetórias. Há aqueles que apenas passam pela empresa como quem atravessa um lugar de transição.E há aqueles que encontram ali um espaço onde vale a pena permanecer e construir uma história.”
São estes últimos que, silenciosamente, sustentam o futuro das organizações. Então, pergunto: que tipo de empresa você quer ser para seus colaboradores? Essa resposta impacta diretamente nos seus clientes e, consequentemente, no seu resultado. A era do ‘cliente em primeiro lugar’ cedeu espaço para ‘colaboradores em primeiro plano’, pois devemos cuidar do nosso capital humano para que este gere mais satisfação, retenção e, consequentemente, a saúde corporativa.

Thiago Tomaz é especialista em marketing de hospitalidade e experiência, com mais de 10 anos de carreira dedicados a transformar marcas em histórias que conectam pessoas a lugares. Passou por agência e por alguns dos maiores nomes da hotelaria catarinense, liderando estratégias de branding, conteúdo e identidade de marca que deixaram marcas reais nos negócios e nas pessoas. Acredita que o marketing mais poderoso é aquele que tem propósito e que toda marca tem uma história genuína esperando para ser contada.
*Os artigos publicados no Blog Endomarketing.TV buscam fomentar o debate e o conhecimento no setor. As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição institucional da Progic.








